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Elton Medeiros decidiu comemorar com um disco os 40 anos do Zicartola, o legendário bar-restaurante de Cartola e Dona Zica, no centro do Rio de Janeiro, onde se ouvia o melhor da música popular brasileira dos anos 60.
Lançado no mesmo ano em que o compositor completa 75 anos, quem acabou ganhando um presente fomos nós. Neste caso, um presente e tanto: o disco 'Bem que Mereci'. Título de um samba composto a quatro mãos com Paulinho da Viola, talvez seu parceiro mais constante, 'Bem que Mereci' nos brinda com 13 músicas inéditas e outras, pouco conhecidas, do primeiro time do Zicartola: Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva. Do primeiro escolheu 'Partiu', antes só gravada pelo autor para um disco não comercial, brinde para um grupo de privilegiados. 'Vestido Tubinho' era muito cantada no Zicartola por Zé Kéti. 'Não Avance o Sinal', de Ismael, foi um presente de Paulo Cesar Pinheiro, e 'Lavo Minhas Mãos', de Nelson Cavaquinho, que Elton mal conhecia, um tesouro exumado pelo parceiro e amigo Afonso Machado, ora envolvido numa pesquisa sobre Nelson.
Selecionado o repertório do Zicartola, Elton partiu para o seu, pinçando do baú jóias raras com 'Dívidas' (que assina com Paulinho da Viola) e 'Velha Poeira' (com Paulo Cesar Pinheiro e Luiz Moura), as únicas não inéditas. 'A gente faz música brincando', diz ele de sua parceria com Paulinho da Viola. Ela flui tão naturalmente que, certa vez, ao acabarem de gravar um disco, informados de que ainda havia um tempo para outra música, Paulinho olhou para Elton e sugeriu: 'Vamos fazer uma agora?' E foram para o banheiro, arriaram o tampo do vaso, sentaram e assim nasceu, quase que de improviso, 'Moema Morenô'. Com Antonio Valente, a relação é diferente. Brigam um bocado, mas o resultado final é sempre bom, e é isso que importa.
Ouçam e julguem 'Antigas Lembranças', por exemplo. Elton detectou nela 'umas nuances melódicas' de Chico Buarque e pediu ao parceiro para maneirar um pouco, dar à letra uma abordagem buarquiana, mas sem forçar a barra. E ela ficou assim: 'Não ouço tato o Chico/ E as suas donzelas/ Olhando da janela/ A vida passar...'
Ninguém é parceiro de Elton por acaso. É preciso muita conversa, muito tempo de casa. Parceria, para ele, é casamento. Sem uma identidade, inclusive ideológica, não dá certo. Na hora de gravar, os critérios não mudam. 'Fica um trabalho íntimo e prazeroso', comenta. Para gravar 'Bem que Mereci', ele escolheu músicos que o acompanham há tempos ou que conhece 'desde menino', com Gilson Peranzzetta. 'Não só mereci fazer este disco com acho que mereço os amigos que me ajudaram a fazê-lo'.
Maria Lúcia
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