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Pouca gente sabe, mas o nome de Roque Ferreira está presente em muitos discos dos maiores sambistas brasileiros. Desde 1979, quando foi lançado por Clara Nunes no LP “Esperança”, até os mais recentes discos de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Elton Medeiros, Martinho da Vila e Beth Carvalho, entre outros, o compositor tem sido uma referência do samba de roda baiano. São dele duas músicas-títulos da discografia de Zeca Pagodinho: Samba pras Moças (em parceria com Edil Ribeiro) e Água da Minha Sede (com Dudu Nobre), sem falar na famosa “Pro Amor Render”, parceria com Dudu Nobre gravado por Martinho da Vila em 1999. Roque Ferreira lança agora seu primeiro disco solo, com 19 composições suas, todas cantadas por ele mesmo: “Tem Samba no Mar”, segundo lançamento do selo Quelé (uma associação da Acari com a Biscoito Fino), gravado nos estúdios da Acari em junho de 2003, com idealização e produção de Luciana Rabelo e arranjos de Mauricio Carrilho. “Espero esse disco com grande ansiedade, porque ele começou a ser concebido ainda na minha infância” diz. “Tem Samba no Mar” resgata uma injustiça do mercado musical brasileiro: assim como Cartola, Roque Ferreira só consegue fazer seu primeiro disco aos 56 anos. Estudioso da paisagem cultural brasileira – “é o Câmara Cascudo da música” , define o produtor Rildo Hora –, Roque nasceu em 1947 em Nazaré das Farinhas, no interior da Bahia, e começou a fazer samba de roda - gênero característico do recôncavo baiano, com melodia rica, harmonia simples e versos curtos - quando se mudou para Salvador, aos 14 anos. “Compunha sozinho, não era conhecido de ninguém, nunca acreditei que alguém fosse gravar alguma coisa minha” . Persistente, nunca deixou de mandar fitas para quem achava que poderia se interessar e hoje pode comemorar: tem 150 músicas gravadas e vive exclusivamente da música.. Então sócio de uma agência de publicidade em Salvador, Roque percebeu que sua vida podia mudar quando encontrou um diretor da extinta gravadora Odeon, que ouviu suas músicas e o apresentou a Roberto Ribeiro. “Foi o primeiro contato que tive com os sambistas do Rio e logo depois a Clara Nunes gravou “Apenas um adeus”, lembra. Mas foi o produtor Rildo Hora o grande incentivador de sua carreira. “E agora a Luciana Rabelo, que é a alma desse disco” , completa Roque. “Ele é um dos melhores compositores populares brasileiros. Suas músicas têm um acabamento nota 10. É um craque, um intelectual, interessado nas expressões interioranas do Brasil. Lembro que quando era produtor da Beth Carvalho, recebi da gravadora uma fita com três músicas dele e as três eram ótimas, o que é uma raridade. A Beth gravou logo “Doce de Cajá”, conta Rildo Hora. Das 19 músicas de “Tem Samba no Mar”, 12 são em parceria com Paulo Cesar Pinheiro e o resultado é um trabalho nunca feito na música brasileira. “A primeira idéia era de fazermos um disco apenas com nossas parcerias – temos quase 30 músicas – mas, como ele tem outras coisas muito fortes, quis mostrá-las também, o que foi ótimo. O “Samba pras Moças”, por exemplo, muita gente acha que é do Zeca Pagodinho, que a gravou numa levada de samba carioca. O Roque quis mostrá-la como ela é originariamente, como foi composta por ele - e é maravilhosa” , explica Paulo Cesar. A primeira música do disco, “O Cavalo de São Jorge”, é um samba de roda que acabou ficando com um andamento mais lento, mais parecido com um outro tipo de samba. “O Roque quis fazer dela uma música que lembrasse os sambas de Dorival Caymmi. Paulo Cesar ressalta a qualidade da voz do compositor e a diversidade dessa música, vinda do recôncavo baiano para o Rio de Janeiro no início do século passado, quando as primeiras baianas – a maioria de Santo Amaro da Purificação, terra de Bethânia e Caetano - vieram para a cidade e se misturaram com sambistas do Estácio e da Mangueira. É uma musica muito rica que ainda está lá, quase primitiva, como a chula, ultimamente esquecida até pelos próprios baianos. Do disco fazem parte o côco de embolada, o samba de capoeira, o samba de roda e o ijexá, que também são comuns por lá.' Ele lembra que um verso usado em uma de suas músicas mais conhecidas, “Lapinha”, é um refrão folclórico daquela região, do “Canto do Besouro”, assim como um verso famoso de Noel Rosa, do início do século passado: “quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela...” 'Por isso, o samba de roda, quando é cantado aqui no Rio, pega na veia do carioca, se identifica com a cidade” explica Paulo Cesar Pinheiro, que vê no parceiro uma pessoa com dois lados distintos: um compositor popular e um escritor sofisticado. “Ele compõe músicas fáceis de serem aprendidas, mas quando escreve, é um literato com a força um de Guimarães Rosa”.
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